CARA OU COROA
Manifesto sobre a situação dos Transplantes no Estado do Rio de Janeiro
No último dia 4 de janeiro de 2008, associações e ONG’s de transplantados participaram de uma reunião com a coordenadora da Central Estadual de Transplantes (CNCDO/RJ), Dra. Ellen Elizabeth Macedo Barroso, onde compareceram as seguintes entidades: DOHE FÍGADO, ADOTE, ARERJ, AMORVIT, PROJETO AMIGO SOLIDÁRIO e DOEAÇÃO. Na ocasião todos os presentes tiveram a oportunidade de obter esclarecimentos sobre a matéria que foi ao ar no Jornal Nacional do dia 31/12/2007, na Rede Globo, que denunciou a perda de um fígado que poderia ter sido transplantado em uma paciente no Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (HUCFF), no qual, a equipe médica do hospital que iria fazer o transplante está sendo investigada pelo SUS e pelo Ministério Público Federal, por supostas irregularidades na escolha de pacientes que possuem prioridade na fila. Não havia informações suficientes que garantisse que a fila estava sendo respeitada, segundo o depoimento da coordenadora CNCDO/RJ. Quanto ao médico que falou na matéria do Jornal Nacional, Dr. Eduardo Fernandes, será que ele poderia realmente afirmar que aquela era a ultima chance da paciente? Imaginamos a sua indignação e frustração com a situação, porém ao falar para um veículo de comunicação em cadeia nacional e enquanto servidor público no exercício do seu dever, será que ele pesou a repercussão desta lastimável notícia? Nós entidades de classe que militamos realmente em prol dos pacientes, não entendemos até agora porque os noticiários só apontam para o problema específico que envolveu a não realização de um transplante de fígado, que até aonde se sabe, o doador tinha sorologia positiva para hepatite C e que a maioria das equipes não faz transplante nessas condições. Cabe ressaltar, que a equipe do Hospital Geral de Bonsucesso – HGB no Rio de Janeiro e dos estados de Minas Gerais, São Paulo e Espírito Santo não concordaram em fazer o transplante com aquele fígado. Será que a receptora do órgão sabia de todos dos riscos que estava correndo ao receber este fígado em questão? Afinal, ela tinha o direito de ser orientada de maneira que compreendesse os prós e contras após implantar aquele novo órgão, naquela condição que foi oferecido. Foi feita uma auditoria do Tribunal de Contas da União – TCU, que resultou em várias determinações pelo Plenário da Corte, na Sessão Ordinária do dia 06/07/2005 (Acórdão n.º 905/2005 - processo nº 015-513-2004-5-LMR), após a conclusão de um Relatório de Auditoria Operacional, o qual aponta gravíssimas irregularidades quanto aos procedimentos de transplantes realizados pelo SUS no Estado. A captação e doação de órgãos no Estado do Rio de Janeiro que funciona sob a coordenação, hoje da CNCDO/RJ, tem importância e relevância vital para o processo de doação e transplante de órgãos e tecidos. De certa forma, é responsável por conseguir órgãos e tecidos que reduzem a fila e salvam as vidas de muitas pessoas. Em contraposição desde o ano de 2005 o Sistema Nacional de Auditoria – SNA, já havia constatado a precariedade do funcionamento daquele órgão.
Para o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - IPEA o Estado do Rio de Janeiro vem piorando a sua posição relativa em praticamente todos os órgãos pesquisados e o tempo de espera é maior do que nos outros Estados. Ainda segundo o IPEA, entre 2004 e 2005 verificou-se, nesse Estado, a taxa mais baixa de transplantes per capita do país em transplantes de córneas (4,9 transplantes por milhão de habitantes, quando a média nacional foi de 54,1 por milhão).
O que aconteceu no HUCFF é o reflexo da total falta de compromisso de gestões anteriores, que sequer se reportavam ao controle social para prestar contas da vergonha que se abateu sobre a CNCDO/RJ, que vem enfrentando problemas, principalmente, de recursos financeiros, de total infra-estrutura das unidades transplantadoras e do desinteresse de uma política de investimentos em recursos humanos especializados, para procedimentos de tamanha complexidade. Segundo dados da CNCDO/RJ, foram realizados menos de 3 mil transplantes de órgãos sólidos nos últimos 10 anos, até janeiro de 2007 só no Rio de Janeiro, para uma fila de espera de 7.865 pessoas até 28/02/2007. Qual será o saldo das vidas que perdemos, nesta angustiante fila de espera. Isto não dá ibope? Mas, nem tudo está perdido. Neste caos, em que várias unidades transplantadoras foram desativadas no estado, podemos ainda citar como uma exceção o HGB de gestão pública federal que a duras penas hoje presta um serviço de excelência para os pacientes transplantados, em especial, de rins e fígado. Quanto as outras unidades, basta acompanhar os escândalos e processos no Ministério Público Estadual e Federal mais as auditorias, que demonstram a gravidade da situação em que se encontram. Cabe salientar que o transplante não se resume apenas no seu ato cirúrgico, mas na assistência integral ao paciente desde o momento em que ele se escreve na fila, garantidos o pronto atendimento e a eficácia de um acompanhamento da equipe multidisciplinar. Isto é que faz a diferença, pois quando o paciente é orientado sobre o seu tratamento, ele adquire conhecimento sobre o seu caso e tem condições de decidir sobre onde deseja fazer o seu tratamento, do pré ao pós transplante. Este é um dos critérios que deveria estar sendo respeitado e cumprido. Mas este assunto, ninguém fala! Confiar na equipe é a primeira regra na hora da decisão, contudo, se a equipe tem condições e responsabilidade técnica em tratar o paciente com dignidade e de forma a mantê-lo "vivo" e com qualidade de vida – mesmo com o estado de calamidade pública que o nosso atual sistema de saúde se encontra – isto é outra história. Não é a toa que não há divulgação e nem espaço na mídia, dos motivos, bem como do número de óbitos que ocorrem após os transplantes. Este não seria o lado negro da verdade? Então meus caros cidadãos, quem está no fogo é que sabe como tem que correr, para não se queimar. Usar o personagem para fazer a notícia é fácil, mas depois se esquece tudo até que apareça a próxima vítima. Atenção para aqueles que só querem criticar! Aproveitem esta habilidade para sugestões com transparência dos fatos e informações sadias para a sociedade. Queremos ouvi-los com base científica ou, no caso das entidades, em nome de um saber adquirido na militância social, na vivência do dia-a-dia, na discussão e no aprendizado com àqueles que suportam, na prática, as conseqüências da má implementação das políticas públicas neste país e não para apenas jogar as farpas, como uma mera tentativa de formação da opinião pública. Não esqueçam que todos temos que ter responsabilidade com o que se fala a respeito de temas que envolvem o destino de vidas humanas, pois para quem está do lado mais fraco, é tudo ou nada! É fácil persuadir, intimidar e prometer o céu em nome de um "benefício". Porém, as conseqüências ficam a mercê do “cliente”, ou seja, se caso não dar certo, haverá uma justificativa para tudo. Não é assim que funciona? Segue abaixo o link da matéria do Jornal Nacional do dia 31/12/2007.
Clique aqui Assinam abaixo a este manifesto: ARERJ - Associação de Renais Crônicos do Estado do Rio de Janeiro – Rosangela da Silva Santos DOHE Fígado e PRÓ FÍGADO - Carlos Roberto Cabral ADOTE – Aliança Brasileira pela Doação de Órgãos e Tecidos – Renato Gomes AMORVIT – Associação Movimentos dos Renais Vivos e Transplantados do Estado do Rio de Janeiro - Roque Pereira da Silva
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